sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Cinema e As Paisagens



A força do cenário envolvente no cinema é tão poderosa como a história, os actores, o enredo ou a música.
O mítico deserto americano (ou a ansiada road trip) povoa o imaginário do mundo (ou pelo menos o meu), sobretudo graças ao cinema.
As paisagens ganham nova vida nas mãos de determinados realizadores e são eternizadas no grande ecrã, como se de grandes divas se tratassem.

Acho que nunca nenhuma lugar foi tão imortalizado e celebrado no cinema como Nova Iorque - a cidade cinematográfica por excelência. Qualquer pessoa que vá à Big Apple sente, de imediato, que foi transportado para o grande ecrã (ou para a sua parente afastada: a caixinha mágica). Em qualquer esquina nos cruzamos com cenários familiares, em que diversos personagens viveram as mais rocambolescas peripécias.
Dificilmente os americanos verão o resto do mundo como os cinéfilos vêem alguns dos lugares mais emblemáticos dos Estados Unidos da América, com uma familiaridade atroz.
Esses lugares tornaram-se emblemáticos e são hoje familiares graças ao cinema.

Essa capacidade de imortalizar os cenários fica gravada no imaginário do mundo: a Fontana di Trevi em La Dolce Vita, o deserto em The English Patient, Petra em Indiana Jones And The Last Crusade ou Veneza em The Wings Of The Dove, entre muitos e muitos outros espaços apaixonantes. Recordo Before Sunrise que eternizou Viena duma maneira muito particular. Recordo a cena final em que são revisitados todos os lugares da cidade por onde os protagonistas passaram.

A arquitectura dos espaços na tela é o enquadramento e o protagonismo que a cidade tem ao longo do desenrolar da história.

As nossas terras lusas têm esse lado cinematográfico forte de grandes divas do cinema.

As paisagens ganham uma força colossal se forem captadas de forma mágica pela sétima arte.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Ferris Bueller's Day Off


Ok: este é o mítico filme dos anos 80, que resume de forma simples e divertida o sonho de qualquer jovem (ou até mesmo o sonho do jovem que vive dentro de cada um).
Em português chamaram-lhe O Rei Dos Gazeteiros e devo dizer que adoro este título. Acho que deve ser das traduções não literais mais bem conseguidas. Fazer gazeta ou gazetar é, possivelmente, uma das maiores invenções do mundo laboral e estudantil. Quem nunca fez gazeta que atire a primeira pedra, mas estar onde queremos a fazer o que bem nos apetece, quando deveríamos estar em determinado sítio a fazer determinada tarefa é uma das melhores sensações do mundo, como se fossemos donos do tempo e tivessemos total liberdade para sermos e fazermos o que bem entendermos, ou seja, para nos dedicarmos ao ócio, uma das actividades mais almejadas por quem não lhe pode dedicar todas as horas do dia.
Il dolce fare niente, como lhe chama esse povo que sabe bem de que se fala quando se fala em gazetar, como a própria expressão indica. Mas, embora a expressão não seja lusitana, se há povo que sabe do que se fala quando se fala em gazeta são os tugas, dos quais orgulhosamente faço parte.
E agora se até com os feriados querem acabar, o que se pode fazer a não ser seguir o exemplo de Ferris Bueller nos dias mais preguiçosos?

(Querido Chefinho: isto é só brincadeira ;) eheheh)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Clueless


Este é o filme da minha juventude.
Uma ligeira, oca e fútil comédia com Alicia Silverstone fez, no seu tempo, as delícias de milhares de adolescentes.
Ok: que menina da minha geração é que não sonhava ter a vida da Cher?
Os dilemas da juventude abordados de forma leve (levíssima) e desprendida. Entre Barneys e Baldwins, Cher e a inseparável Dionne passeiam-se pelo liceu e, claro, pelo shopping; tomando como missão refazerem o visual da miúda nova da escola e unirem romanticamente o professor e professora mais exigentes.
Apesar de toda este aparente nonsense Clueless foi um dos filmes mais divertidos que vi na adolescência e marcou-me de tal forma que ainda hoje me lembro de muitas das cenas. Para além disso, possuia uma banda-sonora incrível com grandes êxitos de Counting Crows ou Radiohead.
Às vezes é bom levar a vida com a ligeireza desta comédia fútil!

As if!!!!

domingo, 25 de março de 2012

Decisão em The Bridges Of Madison County

Como escreveu Henrique Raposo "inferno é estar entre os melhores anjos da nossa natureza", será viver entre dois céus, será fazer uma escolha impossível e viver até ao nosso último sopro em comunhão com essa decisão. 
Ninguém desconfiará, ninguém imaginará que aquelas cinzas sossegadas e discretas, foram um fogo que ardeu violentamente. Ninguém saberá que há um lado (há sempre um lado) desconhecido e secreto, que apenas a nós pertence, como se não tivesse existido. E não existe, porque a vida é o dia a dia, os grandes momentos são apenas instantes passageiros ocultados pelo movimento diário.
Esta cena é testemunho dum desses grandes momentos, porque o cinema é perito em ocultar a vida de todos os dias - aquilo que passamos a maior parte do nosso tempo a fazer, a sentir ou a pensar - e a eternizar os instantes decisivos da vida:


segunda-feira, 19 de março de 2012

Paris Texas


Wenders é um dos realizadores mais singulares da sétima arte. Os seus filmes são dum lirismo apaixonante e este emblemático Paris Texas é um exemplo disso mesmo.
Paris Texas é um filme sobre a ausência, sobre o regresso, sobre a partida, sobre a busca, sobre o reencontro, sobre os sentimentos, sobre a dicotomia homem/mulher, sobre os laços de sangue, sobre as coisas que podemos ocultar do mundo todo, mas não podemos negar a nós próprios.

Será possível entregarmo-nos ao amor sem negarmos a nossa própria liberdade? Até que ponto podem duas pessoas estar tão próximas sem que se sobreponham uma à outra? Sem que a razão de viver duma passe do seu próprio centro para o umbigo doutra pessoa? Será possível que na fusão de corpo e alma com alguém não abdiquemos um bocadinho de nós?

Paris Texas é também sobre o afastamento, o desespero e a solidão. É sobre a melancolia provocada pelo afastamento, mas também sobre o desprendimento que só o tempo consegue dar. Um desprendimento e ligeireza que são apenas exteriores, na maneira de se lidar com os sentimentos viscerais, porque o apego interior continua, o enternecimento torna-se mais real e sentido, simplesmente fica adormecido pelas idiossincrasias da vida, pela apatia que a vida traz.
E, acima de todos estes temas, é sobre o reencontro. Há reencontros que acontecem porque a vida assim o quis, outros que acontecem porque as pessoas os procuram e outros que simplesmente não acontecem. Mas as pessoas que se reencontram são sempre diferentes das pessoas que existiam antes, das pessoas que estavam encontradas outrora. Porque as pessoas renovam-se continuamente no incessante movimento diário e tal como há pessoas que parece que nem se afastaram por um segundo (mesmo que passem vidas e vidas), há afastamentos que são irrecuperáveis.

Ou nas magníficas e elucidativas palavras de Alçada Baptista no genial O Riso De Deus:
"...tu és um ser singular e a tua singularidade não pode sobrepor-se à minha. Muitas vezes parece que isso pode acontecer e as mulheres, sobretudo, têm uma capacidade de doação que as faz quase desistirem de si próprias para seguirem o caminho que um homem vai traçando com a sua singularidade para não dizer com os seus caprichos. Às vezes penso que o amor humano é um estímulo para termos um grande enternecimento com o mundo porque eu não sei se será possível lançar sobre alguém o nosso fogo interior sem que isso nos tire a liberdade.”

Será que a liberdade e o amor são inconciliáveis ou será o amor que nos dá a liberdade?

domingo, 18 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

The Dark Knight


Finalmente esta nova saga de Batman veio fazer jus a um dos heróis mais queridos da BD.
Com o primeiro, Nolan conseguiu uma obra de elevado valor, mas com o segundo conseguiu transcender todas as expectativas.
Bruce Wayne é mais realista, os vilões são mais desafiantes, a história tem mais sumo e a própria Gotham City é mais próxima das nossas cidades.
Recheado de actores soberbos (Freeman e Caine são irrepreensíveis nos seus discretos papéis), The Dark Knight vive sobretudo dos vilões.
Joker é incansável, como sempre o são os que a loucura possui. O olhar alucinado do protagonista e os trejeitos na excelente prestação de Ledger elevam a personagem ao patamar dos vilões mais emblemáticos do cinema (não desfazendo o trabalho de Nicholson no primeiro Batman de Burton).
No entanto, apesar de Joker ser o principal vilão, é Two Faces quem colmata todo o sentido do filme.
The Dark Knight é sobre a crença de que no meio da corrupção pode haver valores que se elevem. Mas (e porque há sempre um mas) essa elevação é duma enorme fragilidade e pode facilmente ser ceifada. É sobre a loucura e o que é verdadeiramente ser insano num mundo como este, numa sociedade fabricada por nós. É um filme que questiona o que é certo ou errado. É um filme em que o bem e o mal se fundem impedindo a compartimentação de valores.

É um filme sobre uma sociedade cada vez mais e mais descrente, esmagada por todo o tipo de tentações e consumismo.
É um filme sobre as materialismos que criamos e alimentamos com um medo irreprimível do caos, do desconhecido, do incerto.
É um filme sobre o herói que cada um de nós precisa para acreditar num amanhã melhor.
É um filme sobre a esperança de que os nossos heróis sejam perfeitos e que essa perfeição não sofra mutações ao longo do tempo.
Mas nas sábias palavras de Harvey Dent: "You either die a heroe or you live long enough to see yourself become the vilain.".

And we all need someone to look up to, don't we?