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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Home Again



Just watched this movie again (after what? 15, 16 years???). It was my favourite movie when I was a kid. I knew all the lines and I read the book like 3 or 4 times :) Time will pass but Jo will always have Winona Ryder's face and all these Little Women will be little forever in the screen and in my heart!

"Some books are so familiar, reading them is like being home again."

Jo March (Winona Ryder) - Little Women

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

The Guardians Of The Galaxy




Mais uma daquelas agradáveis e imprevisíveis surpresas.

Quando vi o trailer deste filme (a Hooked On a Feeling dos Blue Swede com uma série de imagens sem nexo e até algo nonsense) não achei que fosse minimamente apelativo.

Algumas pessoas que viram o filme disseram maravilhas (não que isso seja sinónimo de que o filme é bom) e que este tinha sido um dos melhores 3D que tinham visto. Acabei por lhe dar uma chance e saí do cinema mesmo satisfeita.

The Guardians Of The Galaxy tem um 3D muito apelativo: passa-se no espaço e conseguem-se sempre imagens lindíssimas desse cenário. (O melhor 3D que já vi continua a ser o do Gravity. Indescritível!)

As personagens principais são estranhas, mas "crescem" em nós à medida que o filme evolui. Os actores estão muito bem e realmente dão vida a esta improvável história de guardiões.

Mas o melhor de tudo (pelo menos para mim) é a música. A maneira como a música combina com aquelas imagens é perfeita. Estou completamente viciada na banda-sonora: awesome mix!!! É divertido escutar algumas destas canções de sempre a acompanhar cenas intergalácticas e seres nascidos da imaginação humana. O poder da música é indescritível, sobretudo quando usada da maneira certa na sétima arte. Há melodias que associamos de imediato a determinada imagem ou filme ou, até mesmo, personagem. E a música tem o poder de nos fazer rir ou chorar, é uma droga ponderosa, como - aliás - já referi antes neste blog.

E, no caso de The Guardians Of The Galaxy, é sobretudo a música que lhe dá aquele ar cool e descontraído, aquela good vibe que nos faz sentir que está sempre tudo bem, mesmo quando as circunstâncias parecem ditar o contrário.

 

De resto, o filme tem a típica história de heróis, mas é tão divertido que se torna delicioso. E realmente há também arte em fazer as pessoas sorrir, em prender as pessoas ao ecrã por alguns momentos com cenas improváveis e hilariantes, com seres que só podem mesmo existir no cinema. Com acção e comédia e ficção e fantasia! E é também por isso que eu adoro tanto esta arte mágica de fazer cinema, porque podemos espelhar a realidade ou uma realidade que existe apenas dentro de nós e torná-la real por cento e vinte minutos.

Entretenimento puro!



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Starship Troopers


 
Este filme é super antiguinho e provavelmente se o revir agora não lhe reconheço as características que faziam as minhas delícias quando era adolescente.
Este é um daqueles filmes que vi vezes sem conta e nunca me fartava.
Primeiro que tudo é de ficção científica: tem uma abordagem muito interessante, pois a guerra desenrola-se com uma raça de aracnídeos extra-terrestes, ou seja, o planeta está todo unido na mesma batalha.
Os actores parecem saídos dum catálogo de tentacões e as sequências de accão que Paul Verhoeven filma são normalmente apelativas.

 
Eu devia andar no 7o ou 8o quando estava viciada em Starship Troopers.
A mesma altura em que eu e a minha colega de carteira alugávamos filmes no clube de vídeo da vila e íamos para minha casa nos dois dias da semana em que não tinhamos aulas de tarde para as nossas sessões de cinema.
Foi assim que vimos os Alien e também clássicos (como o The Exorcist) do cinema de terror (e alguns fiascos desse mesmo género pelo meio).
Ela usava as (agora outra vez tão em voga) All Star e tinha uma panca pelo vocalista dos Nirvana. Ainda me lembro das sapatilhas terem o primeiro nome dela seguido de Cobain escrito. Também gostava imenso de lilás, era a sua cor de eleição que usava em looks totais ou com pelo menos uma peça nesse tom.
Recordo-me disto como se tivesse sido ontem. Como se estivesse a abrir a cassete e a rebobiná-la para vermos o filme. Como se ainda sentisse o cheirinho das pizzas individuais que comprávamos na pastelaria da esquina.
São estas coisas que ficam. Para mim é como se ela nunca tivesse crescido. Essa minha colega vai ser sempre a minha companheira de carteira, com quem me ria durante as aulas e dizia parvoíces (na altura não havia telemoveis nem facebook e mais tarde talvez um olhar sobre o que a era cibernetica mudou na juventude e na percepção que a memoria tem).
O tempo da infância e da juventude são curiosos, porque têm destas coisas.
É como se cá dentro a nossa idade não fizesse sentido. Há dias em que sentimos que vivemos imenso e há outros em que parece que ainda estamos nas traquinices do 7o ano.

 
Há muitos filmes e, sobretudo, séries que associo a essa época: Baywatch (um pouco antes), Tropical Heat, Mad About You, The Highlander, Seinfeld (um pouco mais tarde), talvez porque era uma altura em que consumiamos imensa televisão.
Starship Troopers é dessa mesma época. Vi-o e revi-o tantas vezes que é inevitável que sinta novamente o gosto da juventude na boca quando penso no filme.

 
Starship Troopers pode não ser genial (que eventualmente poderei comentar mais tarde quando o conseguir rever brevemente), mas tem ideias e sequências ainda hoje muito originais.
A maneira como a sociedade está estruturada e, mais importante que tudo, a tal utópica união que a Humanidade vive no filme são bastante curiosas. Aliás, infelizmente, essa união parece só estar ao alcance de nós se realmente seres alienigenas invadissem o nosso querido planeta.
Outra ideia subjacente ao filme (que não é no entanto explorada) é a capacidade que temos (teremos) de pressentir determinadas coisas, no caso a percepção extra sensorial de conseguirmos comunicar com os tais seres. E a ideia de que o medo (pelo menos como instinto de sobrevivência) é um sentimento comum a todos os seres vivos, independentemente da raça.

 
Starship Troopers é, portanto, especial para mim: recordarei sempre como o filme dos meus 12, 13 anos. Um filme cujo pensamento me transporta para uma outra época, quase uma outra dimensão, em que as responsabilidades eram nulas e a decisão mais dificil era decidir que filme escolher para essa tarde e em que imaginávamos que Humanidade significava o mesmo para todos os seres humanos.
Ser adulto tem coisas maravilhosas, podendo uma delas ser a clareza de espirito, mas não há nada como o nebulosidade da juventude. Ou sera o inverso?

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Maleficent




É refrescante ir ao cinema e ser surpreendido!

Maleficent: não sabia bem o que ia ver, sabia apenas que se tratava duma nova versão do conto de fadas da Bela Adormecida.

Sempre achei piada às três fadas e achava a Aurora o desenho animado mais bonito das histórias de encantar clássicas. No entanto, Sleeping Beauty é um bocado insípido e a personagem que dá nome à história é completamente descaracterizada. Dorme grande parte da história, não tendo qualquer influência (ou muito pouca) nos acontecimentos.

Então porquê que decidi ir ver este filme?

Bom, primeiro porque ultimamente este repescar de personagens ou velhas histórias tem sempre algo inovador (hello X Men!!), segundo por uma razão muito forte: Angelina Jolie.

Angelina Jolie foi uma das actrizes mais irreverentes das últimas décadas. Após experimentar tudo o que havia para provar e viver no limite, numa busca de identidade, Angelina parece ter-se encontrado nas viagens que fez pelo mundo ao servico das Nacões Unidas.

Jolie é uma das actrizes que mais admiro. Normalmente, os seus papéis são fortes, mas não carecem duma certa fragilidade. A actriz é versátil e muito talentosa. Sabe usar quer as expressões faciais, quer corporais para encarnar as mais variadas personagens e deslumbrar os espectadores.

O seu olhar penetrante é capaz de hipnotizar ou gelar, efeito esse quebrado de imediato pelo seu caloroso sorriso.

Portanto, Disney revisitado mais este talento da natureza, achei que pelo menos valia a pena ir espreitar.

Maleficent foi – não só – uma surpresa agradável, como – também – um dos melhores filmes que vi este ano.

 

O filme é dirigido por Robert Stromberg, no seu primeiro e notável trabalho de realizacão.

Stromberg é conhecido pelos efeitos especiais e direccão artística, tendo ganhado óscar na categoria de direccão Artística em dois anos consecutivos por Avatar e Alice in wonderland. O seu trabalho tocou filmes como Pan's Labytrinth, Pirates of the Caribbean: At World's End, The Hunger Games ou Game Of Thrones.

Escusado será dizer que os efeitos especiais deste filme são deslumbrantes, com particular ênfase nas asas da nossa protagonista que são absolutamente fabulosas. As sequências de accão estão muito bem conseguidas e toda a magia inerente ao filme e à história é simultaneamente divertida e assombrosa.

Jolie está perfeita como esta inesquecível Maleficent!

Elle Fanning é uma competente Aurora e as três fadas: Lesley Manville, Imelda Staunton e Juno Temple são de chorar a rir.

O grande momento final é das mais belas sequências que já se fez em cinema.
 
Last but not least, a música de fecho de Lana Del Rey assenta que nem uma luva a este mundo de fantasia.

Por tudo isto, Maleficent é uma lufada de ar fresco no panorama actual da sétima arte e é uma excelente experiência de deslumbramento que apaixonará até os mais cépticos.
 
 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Ender's Game


Vi o filme há umas semanas e fiquei estarrecida. O filme é tão complexo e singular que decidi digerir antes de me debruçar sobre ele.

É interessante que a obra anterior tem um final substancialmente diferente deste. Enquanto no Gravity o final é claramente uma celebração da raça humana, o final de Ender's Game leva a debruçar-nos justamente sobre o (ridículo?) pressuposto da superioridade humana.

Acompanhamos a história de Ender (Asa Butterfield), um rapaz recrutado pelas Forças Militares Internacionais para fazer parte dum exército, que visa derrotar uma raça alienígena genocida, que anteriormente invadiu a Terra e quase nos levou à extinção. 
Os métodos de treino liderados pelo Coronel Graff (Harrison Ford) são muito pouco ortodoxos, questionáveis inclusivamente pela sua parceira Major Gwen Anderson (Viola Davis). 
Este exigente e incansável treino militar que jovens adolescentes recebem é um interessante exercício de análise sobre o controlo e a resistência.
Cada passo faz parte dum elaborado plano para confrontar os jovens (e em particular Ender) com as suas capacidades de estratégia e comportamento em guerra.
A missão desta equipa é criar líderes implacáveis, capazes de dirigir um exército que derrube o inimigo.

Quer o treino dos jovens, quer os objectivos da missão são temas bastante fortes. 
Os jovens são guiados de modo a desenvolverem o seu máximo potencial, mas ao mesmo tempo são como que robotizados pelos métodos implementados. Uma espécie de lavagem cerebral em que cada ponto não é dado sem nó.
Os objectivos da missão estão bem delineados: dela depende a sobrevivência da Terra e a maneira como se atingem poderá ou não ser questionável.

Ender's Game levanta questões muito curiosas sobre o sentido da vida e sobre a maneira de nos relacionarmos (entre humanos e não só).

"It is easy to overlook this thought that life just is. As humans we are inclined to feel that life must have a point. We have plans and aspirations and desires. We want to take constant advantage of the intoxicating existence we've been endowed with. But what's life to a lichen? Yet its impulse to exist, to be , is every bit as strong as ours-arguably even stronger. If I were told that I had to spend decades being a furry growth on a rock in the woods, I believe I would lose the will to go on. Lichens don't. Like virtually all living things, they will suffer any hardship, endure any insult, for a moment's additions existence. Life, in short just wants to be."


Debruça-se também sobre a manipulação e o que se está disposto a fazer em defesa da sobrevivência da espécie. Sobre como as nossas decisões afectam outros seres e sobre como podemos e queremos usar a nossa "supremacia". Sobre a sobrevivência - a qualquer custo.


"I mention all this to make the point that if you were designing an organism to look after life in our lonely cosmos, to monitor where it is going and keep a record of where it has been, you wouldn't choose human beings for the job.
But here's an extremely salient point: we have been chosen, by fate or Providence or whatever you wish to call it. It's an unnerving thought that we may be living the universe's supreme achievement and its worst nightmare simultaneously.
Because we are so remarkably careless about looking after things, both when alive and when not, we have no idea-- really none at all-- about how many things have died off permanently, or may soon, or may never, and what role we have played in any part of the process. In 1979, in the book The Sinking Ark, the author Norman Myers suggested that human activities were causing about two extinctions a week on the planet. By the early 1990s he had raised the figure to about some six hundred per week. (That's extinctions of all types-- plants, insects, and so on as well as animals.) Others have put the figure ever higher-- to well over a thousand a week. A United Nations report of 1995, on the other hand, put the total number of known extinctions in the last four hundred years at slightly under 500 for animals and slightly over 650 for plants-- while allowing that this was "almost certainly an underestimate," particularly with regard to tropical species. A few interpreters think most extinction figures are grossly inflated.
The fact is, we don't know. Don't have any idea. We don't know when we started doing many of the things we've done. We don't know what we are doing right now or how our present actions will affect the future. What we do know is that there is only one planet to do it on, and only one species of being capable of making a considered difference. Edward O. Wilson expressed it with unimprovable brevity in The Diversity of Life: "One planet, one experiment."
If this book has a lesson, it is that we are awfully lucky to be here-- and by "we" i mean every living thing. To attain any kind of life in this universe of ours appears to be quite an achievement. As humans we are doubly lucky, of course: We enjoy not only the privilege of existence but also the singular ability to appreciate it and even, in a multitude of ways, to make it better. It is a talent we have only barely begun to grasp.
We have arrived at this position of eminence in a stunningly short time. Behaviorally modern human beings-- that is, people who can speak and make art and organize complex activities-- have existed for only about 0.0001 percent of Earth's history. But surviving for even that little while has required a nearly endless string of good fortune.
We really are at the beginning of it all. The trick, of course, is to make sure we never find the end. And that, almost certainly, will require a good deal more than lucky breaks."


Uma análise muito interessante e inovadora. Ideias bem desenvolvidas e um filme que adapta muito bem para o grande ecrã todo esse universo, quer em termos visuais, quer em termos filosóficos.
As sequências visuais são estonteantes.
Como seria de esperar dos veteranos Ford, Davis e Ben Kingsley estão bastante bem nos seus papéis. Asa Butterfield como Ender está perfeito. Uma interpretação muito segura e comovente, que dá bastante credibilidade a toda a história e faz com que o espectador se sinta muito ligado a tudo o que vai acontecendo.

Ender's Game é um filme espacial poderoso que, para além da visualmente bombástica viagem galáctica, nos leva a percorrer um caminho muito curioso em termos filosóficos.


And last, but not least: another though about life in space:


"We may be only one of millions of advanced civilizations. Unfortunately, space being spacious, the average distance between any two of these civilizations is reckoned to be at least two hundred light-years, which is a great deal more than merely saying it makes it sound. It means for a start that even if these beings know we are here and are somehow able to see us in their telescopes, they're watching light that left Earth two hundred years ago. So, they're not seeing you and me. They're watching the French Revolution and Thomas Jefferson and people in silk stockings and powdered wigs--people who don't know what an atom is, or a gene, and who make their electricity by rubbing a rod of amber with a piece of fur and think that's quite a trick. Any message we receive from them is likely to begin "Dear Sire," and congratulate us on the handsomness of our horses and our mastery of whale oil. Two hundred light-years is a distance so far beyond us as to be, well, just beyond us.”


Todos os excertos apresentados neste texto são de A Short History About Nearly Everything de Bill Bryson.

sábado, 30 de novembro de 2013

Gravity


Who are we? What are we?
Ao longo dos tempos que o Homem tem-se debatido com estas questões.
Será o espaço a última fronteira que nos faz perceber o que somos e as implicações desse confronto?

Gravity debruça-se indirectamente sobre esses temas (como aliás qualquer filme de valor que se passe no espaço). 

Alfonso Cuarón criou aqui uma experiência muito interessante com imagens estarrecedoras e sons perfeitamente credíveis.

Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalski (George Clooney) tentam sobreviver a um acidente espacial.
As sequências de dissolução de matéria são estonteantes e levam-nos ao encontro da nossa pequenez:

“If you imagine the 4,500-bilion-odd years of Earth's history compressed into a normal earthly day, then life begins very early, about 4 A.M., with the rise of the first simple, single-celled organisms, but then advances no further for the next sixteen hours. Not until almost 8:30 in the evening, with the day five-sixths over, has Earth anything to show the universe but a restless skin of microbes. Then, finally, the first sea plants appear, followed twenty minutes later by the first jellyfish and the enigmatic Ediacaran fauna first seen by Reginald Sprigg in Australia. At 9:04 P.M. trilobites swim onto the scene, followed more or less immediately by the shapely creatures of the Burgess Shale. Just before 10 P.M. plants begin to pop up on the land. Soon after, with less than two hours left in the day, the first land creatures follow. 

Thanks to ten minutes or so of balmy weather, by 10:24 the Earth is covered in the great carboniferous forests whose residues give us all our coal, and the first winged insects are evident. Dinosaurs plod onto the scene just before 11 P.M. and hold sway for about three-quarters of an hour. At twenty-one minutes to midnight they vanish and the age of mammals begins. Humans emerge one minute and seventeen seconds before midnight. The whole of our recorded history, on this scale, would be no more than a few seconds, a single human lifetime barely an instant. Throughout this greatly speeded-up day continents slide about and bang together at a clip that seems positively reckless. Mountains rise and melt away, ocean basins come and go, ice sheets advance and withdraw. And throughout the whole, about three times every minute, somewhere on the planet there is a flash-bulb pop of light marking the impact of a Manson-sized meteor or one even larger. It's a wonder that anything at all can survive in such a pummeled and unsettled environment. In fact, not many things do for long.” 

Bill Bryson in A Short History About Nearly Everything


Somos matéria. Matéria. A densidade da matéria distingue-a. Mas não deixamos de ser matéria. Somos partículas ou como Feynman brilhantemente colocou a questão:

"I, a universe of atoms, an atom in the universe."

E falando de física, pareceu-me que o filme tem alguns momentos inverosímeis em termos de realismo. Muitas coisas lhe retiram a credibilidade, mas esquecendo as possibilidades físicas, mesmo a nível emocional o filme parece algo insípido. É certo que as emoções são imprevisíveis, sobretudo quando confrontados com situações extremas, no entanto a maneira como somos guiados através da espiral de emoções capta totalmente a nossa atenção, mas ao mesmo tempo não nos convence totalmente. Talvez porque as cenas de grande tensão são (demasiado) rapidamente substituídas por cenas duma paz aparente ou total. Uma alternância entre acção e contemplação demasiado violenta. Talvez esse ponto seja justamente o que o realizador pretendia e talvez esse desconforto que o espectador possa sentir, descrito neste parágrafo, seja justamente o que se pretende oferecer. E, nesse caso, implementando um certo realismo. O que vem contradizer o que foi exprimido anteriormente. Portanto, é um filme que nos deixa uma sensação contraditória, talvez justamente por oscilarmos entre emoção e pensamento.

À boa maneira cinematográfica, o enaltecimento do herói, neste caso, o ser humano é uma certeza no final do filme.

Sandra Bullock está brilhante, uma actriz notável, num papel difícil, mas ao qual consegue - apesar de tudo - conferir bastante credibilidade.
George Clooney igual a si próprio, ou seja, o engraçadinho charmoso que nada mais é do que uma extensão da sua personalidade, demonstrando mais uma vez que as suas capacidades como actor são limitadas.

Momento de cinema deslumbrante (para além de todas as sequências do planeta Terra, sobretudo quando o Sol parece espreitar e piscar-nos o olho): posição de feto com

A Drª Stone irá perceber que no espaço pode não haver nada a não ser (o adorado) silêncio e são as pequenas coisas que tornam o ser humano único e complexo, são as pequenas coisas como o palrar dum bebé ou escutar um cão a ladrar que podem ajudar a aceitar. E com base na aceitação fazer as escolhas que parecem mais acertadas.

Aceitação essa brilhantemente ilustrada em The Tree Of Life, também com belas imagens espaciais como pano de fundo.
Apesar de ser uma comparação ingrata, The Tree Of Life leva-nos mais fundo quer nos meandros emocionais, quer (em última instância) nos meandros do universo.

Gravity é um filme muito original, com imagens inovadoras e nunca vistas. Mas dá a sensação que o filme foi criado sobretudo por essa experiência: o espaço, a Terra, o Sol, as naves, a matéria a dissolver-se, a ausência de gravidade, o comportamento da matéria. E não tanto pela experiência de criarmos um ponto de ligação com a Drª Stone e nos debruçarmos sobre as questões que o filme pretendia tocar.

domingo, 17 de novembro de 2013

The Counselor



Ridley Scott, Michael Fassbender, Brad Pitt, Cameron Diaz, Javier Bardem: o que se pode esperar destes nomes reunidos senão maravilhas?

Diz-se por aí que o ideal é não ter expectativas em relação a nada. Não ter expectativas em relação às pessoas, aos filmes, às cidades, à vida.
Quando alguém tem uma reputação que o precede, quando a obra dum profissional nos é familiar, quando a qualidade a que nos habituaram é elevada, é difícil não ter expectativas.
No caso particular do cinema, as expectativas podem arruinar um filme, por não irem de encontro às nossas ideias pré-concebidas em relação à obra.

Posto isto, é óbvio que por muito que eu não quisesse estar à espera do melhor isso era inevitável.
The Counselor não só atinge as expectativas como as ultrapassa. O filme é genial!

Ridley Scott é um dos realizadores que mais admiro. Muito versátil, tanto dirige ficção científica de forma subliminar (Alien ou Blade Runner (um dos melhores sci fi movies de sempre) ou ainda Prometheus), como nos traz filmes épicos sonantes (Gladiator, Kingdom of Heaven ou Robin Hood), filmes de guerra com substância (Black Hawk Down ou Body of Lies) ou ainda a reinvenção do road movie (Thelma and Louise - anteriormente abordado neste blog).
The Counselor inscreve-se num género diferente dos acima mencionados: filme de crime em torno do universo do narcotráfico.
As personagens de Scott são normalmente fortes ou descobrem dentro de si uma força desconhecida ao longo do filme. Os seus filmes são também caracterizados por uma certa violência, entre o realista e o subtil.

Scott reúne nomes sonantes que dão corpo ao filme de forma magistral.

Temos um Brad Pitt que dispensa apresentações, veste sempre as personagens que nem uma luva e é um dos actores mais camaleónicos de sempre.

Cameron Diaz numa prestação muito interessante e diferente do que lhe é habitual. Diaz consegue por vezes surpreender aceitando papéis mais arrojados, como é o caso desta sua endiabrada Malkina.

Javier Bardem actor talentoso e versátil, sempre muito competente.

Penelope Cruz, talento variável, sempre duma elegância imaculada, está à altura do papel.

Fassbender - digno de óscar (ainda não compreendi como não houve - pelo menos - a nomeação por Shame) - é um dos melhores actores da actualidade.
O seu "Counselor" é extraordinário. Fassbender é um actor extremamente expressivo, que tem a capacidade de transmitir as mais variadas sensações com um só olhar, uma só expressão ou um só gesto. Actor destemido, Fassbender entrega-se às personagens com uma força avassaladora, sendo este papel mais um exemplo disso mesmo.
Esta interpretação é forte, segura, comovente.

À semelhança de outros casos (e depois de Russel Crowe), Scott tem aqui uma parceria com Fassbender, repetida após Prometheus. Quer o teor do filme, quer a personagem são completamente divergentes. No entanto, a mestria em ambos os filmes e interpretações é inegável. 
Há parcerias que são aquilo a que se poderia chamar match made in heaven: DiCaprio e Scorcese, Mortensen e Cronenberg, Dern e Lynch, Bale e Nolan, Fassbender e McQueen, 
Thurman e Tarantino, apenas para citar alguns.

O ritmo assemelha-se à elegância dum leopardo a deslocar-se.

O guarda-roupa é extraordinário, captando bastante bem os traços de cada personagem, contribuindo até para revelar um pouco mais de cada um, numa fase inicial do filme.

Também os cenários e toda a sequência de cenas estão muito bem conseguidas e realistas, adaptando-se à crueza do que nos vai sendo revelado.

A banda-sonora é cuidadosamente escolhida para cada cena, transmitindo toda a crescente tensão que se vai fazendo sentir.

Um filme adulto, com um enredo intrigante e personagens densas. 
Imperdível para amantes de cinema de qualidade!


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Braveheart



Braveheart: o desafio do guerreiro.
Um verde magnético, a poderosa música escocesa, uma história apaixonante e a luta pela liberdade.

"It's our wis that makes us men."

A delicadeza duma flor pode ser um gesto do tamanho duma floresta. Se as flores falassem teriam concerteza belas histórias para partilhar.

Os pais influenciam-nos para a vida. O lugar de onde vimos, onde crescemos, o exemplo que tivemos (ou não tivemos) e a maneira como nos relacionamos desde a infância tem um profundo impacto em nós.
As primeiras pessoas que nos marcam e a primeira perda definitiva que temos é significativa na nossa formação.



Mel Gibson, um actor extraordinário, um realizador espantoso, teve aqui aquela que é a sua obra-prima. Braveheart não é apenas o seu melhor filme, é também um dos melhores filmes da história do cinema. Gibson conseguiu captar a essência do que é ser guerreiro, da luta pela liberdade: o grande desafio do guerreiro.

Liberdade? O que é a liberdade?
"Querer-se livre é querer livres os outros." Simone de Beauvoir

"You came to fight as free men and free men you are. What will you do without freedom?"


A sede de poder é uma constante da Humanidade. Porquê esta obsessão sob o controlo, a dominação? Porquê o incansável desejo de subjugar outros? Será que assim nos sentimos mais valiosos? Será que a diferença nos amedronta? Nos assusta? Aquilo que não compreendemos, porque não conhecemos.

A confiança. Mas como podemos confiar se a traição é uma constante? Como podemos acreditar? Como podemos ter a fé necessária para dar o passo no escuro; ter a coragem de lutar, de seguir aquilo em que acreditamos?

"Men don't follow titles, they follow courage."

A coragem é a capacidade que o ser humano tem de enfrentar os seus medos. Alguém é mais facilmente destemido quando não tem nada a perder (e o que temos a perder senão ilusões?).
E o que inspira mais o ser humano do que a coragem?


O amor. Este filme demonstra a indubitável força do amor e aquilo de que torna o ser humano capaz. Alguém que ame verdadeiramente, com todas as suas forças, perde o medo de morrer. A morte torna-se natural, aceitável quando estamos cheios de vida, torna-se uma consequência, mais um passo no caminho.
Muitos dirão que o amor é apenas uma lamechice num filme de guerreiros, mas é justamente esse encontro que nos desperta.

A banda-sonora é uma das melhores de sempre. James Horner na perfeição. Aliás, este filme sem a banda-sonora não seria nada. A música tem uma força avassaladora na influência que as imagens têm no espectador. Em Braveheart, a música é o grande motor que nos leva de batalha em batalha até ao inesquecível final.

Mel Gibson está perfeito: inspirador como guerreiro, engraçado na dose certa, invasivo como amante. Um perfeito equilíbrio deste William Wallace tão apaixonante como memorável.
E a questão que se coloca é: como queremos viver?

"Every man die. Not all men really live."

O final do filme é um dos melhores momentos de cinema. Até a multidão fica rendida. E, a imagem da espada no horizonte é uma das mais icónicas da sétima arte.

Um dos melhores filmes de sempre!

"Your heart is free. Have the courage to follow it."


domingo, 20 de outubro de 2013

Thelma and Louise



Duas actrizes extraordinárias, um realizador espantoso, duas amigas na estrada, um road movie pelas áridas e intermináveis paisagens americanas, e temos os ingredientes para um filme promissor.
Acabei de rever Thelma and Louise e relembrei a razão pela qual este filme tem um estatuto mítico.

Ridley Scott é um dos realizadores que mais admiro. Filmes como Blade Runner, Alien ou Gladiator são marcos na história do cinema.
Adoro o ritmo e a originalidade dos filmes com que nos brinda.
Neste caso, deu ao road movie uma nova definição.

Susan Sarandon é uma das minhas actrizes preferidas. Aqueles expressivos olhos enormes são capazes de transmitir as mais variadas sensações (nomeadamente em Dead Man Walking). É uma senhora cheia de classe, uma lutadora e a sua versatilidade artística permite-lhe abraçar qualquer papel.
Geena Davis era a minha heroína nos anos 90. Um dos meus sonhos de miúda era ser uma action lady como ela em Cutthroat Island ou The Long Kiss Goodnight, papéis inspiradores para uma jovem com sede de aventuras. Mulher de armas, actriz admirável e também um dos rostos mais bonitos que o cinema já viu.



Estas duas compinchas estão perfeitas como grandes amigas que embarcam numa aventura sem retorno.

A grande aventura americana: um carro e a estrada livre pela frente.
Ora, neste caso, a estrada livre pela frente é tudo o que estas mulheres têm. E a aventura dura o tempo em que se aguentarem no asfalto com Harvey Keitel no encalço.

Sim: porque este elenco, para além das duas grandes protagonistas tem secundários de destaque.
Um jovem Keitel feito incansável e compreensivo detective - antítese daquilo a que normalmente o associamos - um actor igualmente talentoso. 
Michael Madsen, novíssimo e igual a si próprio.
E, também, jovem que nem uma flor na Primavera, Brad Pitt, num dos seus primeiros filmes, numa aparição tão breve como fulgurante.

Este filme é sobre como uma série de circunstâncias podem mudar o percurso duma vida (ou duas) de forma irreversível. As escolhas que se vão fazendo pelo caminho - sobretudo à medida que as opções se tornam curtas ou até mesmo inexistentes - definem a densidade da viagem que fazemos. E, em última instância, aquilo que somos.

"Something crossed over in me. I can't go back. I just couldn't live."


Com a indumentária perfeita para esta jornada (jeans e t-shirt (e há indumentária mais perfeita do que essa?)), de cabelo ao vento e sorriso no rosto, estas mulheres protagonizam um dos filmes mais emblemáticos do cinema, uma obra de destaque nos road movies.

Thelma e Louise serão recordadas no imaginário de todos os amantes de viagens de carro, em que a liberdade cresce à medida que nos fundimos com o asfalto.

No meio da perseguição, um momento de paz, um cigarro saboreado por entre os silenciosos rochedos feitos testemunha, no grandioso Grand Canyon.

O apoteótico final é uma das razões pelas quais o filme é tão mítico, uma espécie de Butch Cassidy and The Sundance Kid, versão feminina anos 90.

Já não se fazem filmes assim.



sábado, 12 de outubro de 2013

Rush


O meu tio materno adorava fórmula 1. Era particularmente colado na Ferrari. Recordo-me de ele me oferecer vários ferraris pequeninos quando eu era também pequenina e do hábito que tinha de dizer “um ferrari não é um carro, é um sonho”.
Niki Lauda é um nome que não me era estranho,  provavelmente advindo dessa paixão do meu tio e da admiração que nutriria pelo piloto.

Hoje fui ver o Rush e confesso que não fazia ideia do que ia ver. Sabia que era de Fórmula 1, mas não sabia pormenores (a não ser que é com o Chris Hemsworth, mas isso não conta).
O filme é brilhante e a história de Niki e do seu opositor/parceiro de corridas James Hunt é apaixonante - naturalmente a sétima arte faz magia e romantiza a realidade.
Ron Howard tem uma realização brilhante em Rush, colando o espectador à cadeira, fazendo as unhas desaparecerem a cada nova volta. O ritmo do filme é muito bem conseguido e as cenas de pista alternam com cenas de bastidores numa simbiose perfeita.
As sequências das corridas e, em particular, a do famoso acidente a que Lauda sobreviveu a muito custo na Alemanha são duma primazia soberba. Outro pormenor a destacar é o som dos motores, bem como as imagens de toda a engenharia dum veículo a funcionar no momento imediato ao arranque. Quase que conseguimos cheirar o combustível a queimar e o cheiro do rasto de borracha dos pneus.

Lauda é uma pessoa com uma história de vida absolutamente extraordinário, ao qual Rush vem prestar homenagem.
Hunt é, em termos de atitude, o oposto de Lauda. 
Se um é frio e calculista, o outro é uma explosão de labaredas.
Lauda é tenaz, persistente, incansável e perfeccionista. A sua condução e a sua atitude são tão mecânicos como o carro que conduz, tornando-o um dos melhores pilotos de sempre.
Ele sabe o que é necessário para um carro ser imbatível e sabe qual o tipo de condução que deve ter para tirar o máximo partido do veículo, com o máximo de segurança possível.
Já Hunt é destemido e o seu desconhecimento de mecânica aliado à sua feroz paixão, torna-o uma fera na pista.



O que motivava (e aqui a palavra inglesa “drive” resultaria melhor) ambos era sobretudo a competição um com o outro. Estes dois opostos tão complementares aceleravam incessantemente na busca da resposta a “quem é melhor”.
A precisão de Lauda e a paixão de Hunt tornaram-nos numa das duplas mais emblemáticas da Fórmula 1.

"Os que vivem intensamente não têm medo de morrer." Anaïs Nin
Para além da velocidade, a grande paixão destes dois pilotos devia-se à capacidade de desafiar a morte.

Posso dizer que o facto de desconhecer a história de ambos tornou o filme mais emocionante para mim.

Quer Chris Hemsworth, quer Daniel Brühl (soberbo) têm interpretações dignas de aplausos.

Tenho a certeza que se o meu tio visse este filme sorriria e ficaria com certeza satisfeito com este inspirador retrato de dois campeões complementares e apaixonantes.

Imperdível!



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Dirty Dancing


Há anos que não via este filme. Decidi revê-lo há pouco.
Rever Dirty Dancing é como uma viagem no tempo, um regresso à adolescência. E continua tão adorável, como quando todas as adolescentes sonhavam dançar tão bem como a Baby e ter um partner como o Johnny.
Jennifer Grey e Patrick Swayze estão inesquecíveis. Swayze para além de actor brilhante, foi um dos dançarinos mais talentosos de sempre. Deixou saudades no mundo da dança e do cinema. 
A química entre ambos é fortíssima: quer as sequências de dança, quer a interacção dos actores está muito bem conseguida.
Todos os secundários estão perfeitos. 
O argumento é delicioso, traz-nos uma história simples, mas forte e capaz de enternecer os corações mais duros. Para além disso, tem momentos de um humor genial.
Por último, e tão fundamental como o resto para tornar este filme um ícone: a música. A banda-sonora de Dirty Dancing é das melhores que já se fez em cinema. Aliás, apesar de já não rever o filme há muitos anos, posso dizer que a banda-sonora me acompanha semanalmente (nos últimos tempos até quase numa base diária). De merengue a tcha tcha tcha, passando por alguns hits dos 60s e instrumentais delicados, é uma excelente companhia em qualquer momento.


Um Verão quente no interior em 1963, num sítio de férias familiares, onde a dança e jogos de tabuleiro são as principais actividades, cria o cenário perfeito para o desenrolar do filme.
O guarda-roupa é também ele brilhante. 
Até as chuvas fortes de Verão, com o seu ar de tropicalidade, não foram esquecidas e aquela cabana no meio dos bosques com um arzinho aliciante, quase que a chamar por nós. Aliás, os cenários estão impecáveis, transmitindo toda a nostalgia das férias de Verão, iniciada pela recordação que Baby partilha com o espectador no início do filme.
Há momentos marcantes ao longo de todo o filme, a começar pela sala clandestina de dirty dancing ao som de Do You Love Me com a boquiaberta protagonista a acompanhar-nos, depois temos o delicioso teatrinho com Love Is Strange em que é quase impossível não esboçar um satisfeito sorriso e, por último, o mítico momento final - aquela parte que rebobinavamos sempre a cassete de vídeo para voltar a ver - ao som da Time Of My Life, para sempre associada ao filme e cuja coreografia é das mais conhecidas do mundo.

O cinema tem essa capacidade linda de imortalizar as pessoas e os momentos. Podemos regressar àquela coreografia as vezes que quisermos, podemos relembrar aquele Verão quando nos apetecer, Swayze será sempre para nós aquele jovem e musculado bailarino que fez as delícias dos cinéfilos em 1987. 

Por todas estas razões, este é uma das obras mais emblemáticas do cinema e será sempre recordada com muito carinho por todos os fãs de dança que cresceram ao ritmo de Dirty Dancing.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Before Midnight


Before Midnight é a continuação de dois filmes de culto muito amados por uma fatia de público: Before Sunrise e Before Sunset.

Before Sunrise é um delicioso filme no qual Jesse e Celine se conhecem. Na casa dos 20s tudo é um mundo de intermináveis possibilidades. Os sonhos de infância estão ainda a borbulhar e prestes a acontecerem. 
Os diálogos que se vão desenvolvendo ao longo do filme e dar a conhecer aquelas personagens de quem nos viremos a sentir tão próximos (quem é que já não teve 20 anos?) apaixonam o espectador, tanto como o local onde tudo decorre: ao longo das ruas de Viena. Cada local é um marco (particular referência à belíssima sequência final) onde cada momento deste par imprevisível vai acontecendo. Porque o amor, tal como a vida vai acontecendo imprevisivelmente a cada momento. E muitas vezes são os pequenos momentos aparentemente sem grande significado que carregam consigo uma enorme intensidade e, consequentemente, um significado esmagador que nos transcende.

Before Sunset (que não revi tantas vezes como o seu predecessor) é um filme algo triste e melancólico, apesar do inevitável e aparente happy ending. Dez anos depois de Viena, já na casa dos 30s, Jesse e Celine reencontram-se em Paris. Apesar do (aparentemente acidental) reencontro ser motivo de alegria, a vida de ambos evoluiu tanto desde que se conheceram que somos levados a uma certa melancolia à medida que vamos descobrindo os sonhos que foram ficando pelo caminho, os rumos que a vida de ambos foi tomando e a certeza inevitável de que o tempo não pára e há momentos, épocas e idades que são irrepetíveis. Nevertheless outra sensação que nos fica deste filme é a certeza que nem sempre é tarde para viver o que se deixou pelo caminho, para viver os sonhos que se foi deixando adormecer, para viver aquilo que sempre se quis e nas palavras de Irvin D. Yalom, resgatar a pessoa promissora que somos, desde que a isso se esteja disposto.

Before Midnight  mostra a vida destas duas personagens 18 anos após o primeiro encontro. Nessa fase já as vidas evoluíram muito, nomeadamente no campo da maternidade/paternidade, que diga o que se disser é uma mudança radical e definitiva. É o tipo de acontecimento que altera completamente a visão que se tem do mundo, bem como as prioridades e a vida prática. Nesta fase, Jesse e Celine já partilharam grande parte dos acontecimentos da vida adulta e entrarão agora noutro grande desafio: envelhecer juntos. Será que estão preparados para essa escolha diária? Para se reinventarem a cada revés? E, voltamos de novo àquele glorioso momento 18 anos antes, àquela noite inesquecível onde tudo parecia perfeito e promissor. Poderá  a intensidade desse momento ter força suficiente para enfrentar o desencanto e o cansaço? Para trazer a criatividade e a paixão adormecida ao dia-a-dia? É incrível a capacidade que o ser humano tem por desprezar e dar por adquirido aquilo que vai conquistando. Como se pudesse percorrer todo esse percurso de novo e não houvesse caminhos irreversíveis. Como se a vida não fosse construída a cada momento, em cada dia e que por esse motivo devesse haver uma dose considerável de gratidão a cada novo fôlego.

E somos compelidos a relembrar a gloriosa crónica Eternamente de Sousa Tavares:
""E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas no céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na teia, contemplámo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heatcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penelope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor, a tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos  jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-o agora vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Jesse e Celine já não são as mesmas pessoas que eram quando se conheceram, nem quando se reencontraram há 8 anos. Jesse e Celine, como todos nós, são pessoas que morrem e renascem diariamente; em que cada nova vivência, cada movimento perpétuo diário os transforma eternamente.