terça-feira, 11 de outubro de 2011

Os Solitários Do Cinema



Os solitários do mundo cinematográfico apaixonam-nos: temos o eterno James, o divertido Indy, o ganancioso Gordon, o mafioso Michael, o politicamente incorrecto Tony, o aparentemente carrancudo Don, o resistente John, o atormentado Brick, o insubordinado Luke, entre muitos e tantos outros que povoam desde sempre o nosso imaginário.
É no seu cepticismo, na sua descrença que o mundo se revê. Personagens de carácter incerto e de falsa seriedade, interrompida frequentemente, pelo certeiro (e algo cínico) sentido de humor acutilante.
O solitário tem fantasmas, tem segredos, não sabe quem é, mas tenta descobri-lo (um pouco mais) na interacção com os que o rodeiam. E, afinal, o que é a vida senão isso? O que é a vida senão descobrirmo-nos, constantemente, no contacto com os outros? Socializar: veículo único de chegarmos ao fundo de nós próprios e, em antítese, expoente máximo de solidão. É no olhar dos outros que nos revemos ou nos ausentamos. É no reflexo desse olhar que vemos o conforto dum espelho ou a crueza duma parede. É algo de que, simultaneamente, se depende e se abomina. E é nesse curioso jogo que o solitário se revela, um pouco mais, a quem realmente importa: ele próprio.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Comentário de Henrique Raposo

Ao deparar-me com este texto: http://aeiou.expresso.pt/comentario-de-henrique-raposo-sobre-as-pontes-de-madison-county=f678125 não podia deixar de o partilhar neste cantinho.


"As Pontes de Madison County" é uma das maiores histórias de amor do cinema contemporâneo. Ponto.

Está lá em cima, no Olimpo romântico, junto de "Depois do Ódio", "Inimigos Públicos", "Miami Vice", "Disponível para Amar" ou "Brokeback Mountain". Nesta história, um fotógrafo de Washington (Clint Eastwood/Robert) e uma dona de casa do Iowa (Meryl Streep/Francesca) apaixonam-se de forma terminal.

E, como não podia deixar de ser, o filme é capturado pela luz de Meryl Streep. Nunca o adultério foi tão bonito. Sem a presença magnética de Streep, este filme seria uma xaropada venezuelana. Com outra atriz, este argumento fabricaria uma coisa medíocre. Com Streep, este argumento originou um aríete que nos arromba sem pedir licença.

Através de Streep, esta Francesca do Iowa de 1965 passa a ser uma heroína. No fundo, Meryl Streep prova que o melodrama pode partir a loiça toda. Porque, de facto, o material melodramático não é mau (ou bom) à partida.

Tudo depende da forma como é trabalhado. E nesse processo de depuração é fundamental a presença de uma atriz com amplitude térmica. Em "As Pontes de Madison County", Streep consegue tocar no oito e no oitenta, como só ela sabe. Num momento, Francesca parece uma adolescente em pulgas perante o citadino que vem fotografar as pontes lá da terra.

Porém, segundos depois, Streep já é a balzaquiana fogosa. Neste carrossel emocional, Streep aparece com os olhos da esperança, para logo a seguir surgir com o fantasma do desespero na face. Mas porquê desespero? Por que razão Streep não deixa a família e o marido para abraçar o amor da sua vida? Uma leitura superficial diria que Eastwood está a questionar a família americana e que Francesca é uma mulher camiliana presa nas convenções sociais. Eu prefiro ver as coisas de outra forma.

Francesca não abandona o marido porque a bondade não merece ser magoada. Esta mulher está entre o amor e a bondade. Ela sabe que a bondade existe. O marido e os filhos são a prova disso. E, no momento decisivo, Francesca recusa destruir essa bondade. O inferno não é a presença do mal. O inferno é estar entre dois amores, entre duas versões do bem, entre os melhores anjos da nossa natureza."

Comentário publicado no Expresso a 1 de Outubro de 2011, por Henrique Raposo




All Those Moments Will Be Lost In Time


"I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I've watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in the rain. Time to die."
Roy Batty (Rutger Hauer) - Blade Runner

domingo, 9 de outubro de 2011

A Música No Cinema



Embora não negue que o cinema começou mudo e existem grandes filmes sem som (tenho particular carinho pelo A Caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora) de Pabst, com uma apaixonante Louise Brooks), creio que grande parte do magnetismo do cinema vem dos sons que acompanham as imagens.
A música (ou a ausência da mesma) é uma peça chave para definir toda uma cena.
A música é a única coisa do mundo que consegue – instantaneamente – que o nosso humor melhore (para além de nós próprios, claro) e, nesta base, a música é definidora das sensações que as imagens nos transmitem.
A banda-sonora dum filme é algo único e marcante; algo que nos apaixona e nos acompanha, muito depois da experiência visual da obra.
As imagens ganham outra dimensão quando acompanhadas duma melodia; tal como um dia cinzento parece ganhar mais cor, quando escolhemos uma música animada.
Quantas e quantas vezes não fico siderada pela melodia dum determinado filme, escutando-a dias a fio, como que revivendo uma e outra vez a experiência cinematográfica.
O que seria do dramatismo de The English Patient sem aqueles marcantes acordes de Yared; ou do misto de descoberta e ternura do voyeur de Maléna sem aquela maravilhosa melodia de Morricone; ou da violência acutilante de A Clokwork Orange sem a 9ª Sinfonia (ou por outras palavras: a 9ª Sinfonia nunca mais foi a mesma); ou do impacto de qualquer cena Tarantinesca sem as loucas músicas escolhidas a dedo? (Isto só para dar alguns exemplos).
O poder da música é reconhecido em qualquer lugar, em qualquer cultura, em qualquer crença. A música é uma maneira do ser humano se expressar. Pode ser uma forma de amar, pode ser uma forma de revolta, pode ser uma forma de cura, pode ser a maneira de dizermos o que não se consegue ouvir de outra forma. A música é uma linguagem universal e, como tal, é veículo imprescindível no cinema. A música é uma poderosa mensageira e consegue transportar-nos para um mundo de fantasias, pode levar-nos a outras épocas, pode desencadear as mais variadas sensações.
O poder da música é infinito e, por isso, a música é decisiva para a grandiosidade dum filme.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

The Biggest Of All Differences


"The big difference between people is not between the rich and the poor, the good and the evil. The biggest of all differences between people is between those who have had pleasure in love and those who haven't."
Chance Wayne (Paul Newman) - Sweet Bird Of Youth

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Malèna




Este filme marcou-me profundamente.
Vi-o apenas uma vez, mas recordo diversos momentos, nomeadamente a delicadeza desesperante do momento final.
É um filme que mostra muito bem a injustiça, que é sempre e preferencialmente cometida, contra as mulheres. Jamais esquecerei a angústia dos olhos da protagonista, forçada a uma vida indesejada, por e para todos. Jamais apoiada seja por quem for, apenas como imagem de desejo para o sexo masculino e imagem de inveja para o sexo feminino. Perdida, por ausência dum elemento do sexo oposto, elemento esse que na figura de marido ou de pai era o representante da sua honra e prestígio. Porque uma mulher sozinha jamais pode atingir esse estatuto; sendo alvo de selvagem crueldade, sobretudo do sexo feminino.
É um filme que mostra bem a beleza do corpo feminino na imagem do desejo incarnada por Monica Belucci (e magistralmente filmada por Giuseppe Tornatore). Cada contorno do corpo feminino, cada linha do rosto, a maneira como o cabelo longo cai e esvoaça, a maneira como os lábios se entreabrem, a maneira como os seios parecem querer revelar-se, a maneira como os tecidos acariciam a pele, a maneira como a roupa aconchega cada pedaço de carne.
É um filme que mostra bem a inocência em todo o seu esplendor e os primeiros sinais duma juventude ardente, dominada pelos calores da puberdade. A passagem de menino a homem, em todas as suas idiossincrasias (numa deliciosa interpretação de Giuseppe Sulfaro).
É um filme que mostra bem que são as memórias jovens que nos marcam de forma mais profunda e definitiva. Que permanecem na mente dum modo assombroso na sua plenitude e realismo.
É um filme que mostra que amor e desejo andam de mãos dadas e que os primeiros sentimentos têm a força de marcar uma vida.
E, tudo isto, acompanhado duma das mais belissímas bandas-sonoras de sempre (ou não fosse Ennio Morricone um dos maiores génios neste campo).
Sendo certo na vida, apenas a morte, há momentos que permanecem connosco até esse dia, que fazem parte de nós e nos definem duma maneira muito mais decisiva do que alguma vez imagináramos. Momentos esses que, podendo ser dependentes de outrem, nos marcam de forma única, nem mesmo o objecto de desejo imaginando. Ficam, independentemente do nome, do rosto, do timbre, dos contornos, dos receios, dos desejos, dos sonhos, dos segredos serem lembrados ou até mesmo conhecidos.

sábado, 1 de outubro de 2011

Eternal Sunshine Of The Spotless Mind



Até que ponto vale a pena preservarmos determinadas memórias que nos levam a um determinado pensamento que, por sua vez, dá origem a um certo sentimento? Ou por outras palavras até que ponto vale a pena escolhermos viver determinado momento, quando sabemos exactamente como vai terminar?
A premissa deste filme é curiosa: um homem descobre que a ex-namorada apagou da sua mente as memórias da relação de ambos e, face a este facto, decide ele mesmo apagar da sua memória as recordações desse relacionamento.
Ao longo do filme acompanhamos o protagonista (brilhantemente interpretado por Jim Carrey) a percorrer na mente, uma e outra vez, cada pedaço do que viveu com a ex-namorada (a sempre magnífica Kate Winslet). A memória tenta preservar cada uma dessas lembranças, tentando escapar ao perscrutar da mente (e, consequente, extinção da recordação dessas vivências). Para além do filme estar belissimamente construído e  o leque de actores secundários ser poderoso, levanta-nos questões filosóficas de elevado interesse.
Quantas e quantas vezes não gostaríamos de apagar da mente determinados episódios que experienciamos? No caso particular do que o filme retrata (a relação amorosa) quantas vezes não desejámos que existisse um sistema de controlo cerebral (uma espécie de interruptor) que nos permitisse desligar. Porquê que a memória afecta tanto as nossas emoções? Porquê que um simples pormenor, como um aroma ou uma palavra, conseguem relembrar algo adormecido? Porquê que um pensamento faz despoletar todo um momento passado, quase como se o experienciássemos de novo? Porquê que as vivências agradáveis são com frequência relembradas com amargura ou tristeza?
Bom, para se perceber as interligações cerebrais de memória, pensamento, emoções, recomendo a leitura de António Damásio, particularmente O Livro Da Consciência.
A última questão prende-se com o facto de a vida ser uma combinação de estados que temos de atravessar ou, nas palavras de Anais Nin: "A vida é um processo e uma combinação de estados que temos de percorrer. Onde as pessoas falham é que querem eleger um estado e permanecer nele." 
Muitas vezes quando atravessamos um determinado estado positivo, gostaríamos de permanecer nesse mesmo estado e, consequentemente, quando o incessante movimento da vida segue o seu rumo, custa-nos prosseguir e queríamos assumir como permanente o que se impõe como impermanente, queríamos permanecer num estado, quando ele é apenas isso mesmo: um estado (e, por inerência, passageiro). Tal é tanto mais notório quanto mais apegados estamos à nossa condição (que é ela mesma em si própria impermanente) e, por consequência, às pessoas que se cruzam connosco, sobretudo nos caminhos do coração. Será, porventura, o truque viver em equilíbrio conseguindo vivenciar intensamente e com plenitude cada estado, assumindo e aceitando que outro posteriormente lhe tomará o lugar? Possivelmente.
No entanto, o ser humano tem enorme dificuldade em libertar-se dessa inércia ao agradável, por isso este filme é dum enorme brilhantismo e relembra-me um poema de Carlos Drummond de Andrade:
"Destruição
Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.”